8 de dezembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais, Notícias | Tags: capacidade chinesa, lições a serem absorvidas, segurança nacional
Um competente professor de sociologia, Heraldo Barbuy, explicava em suas brilhantes aulas que havia forças dentro de uma sociedade que eram necessárias, mas que não deveriam ser utilizadas. É o caso das forças armadas, indispensáveis para qualquer país que pretenda ser realmente independente, junto com a sua capacidade de abastecimento de alimentos e de energia. Um impressionante artigo do jornalista Jeremy Page, do Wall Street Journal, publicado ontem no Valor Econômico, fala da capacidade militar chinesa atual.
Lamentavelmente, todos sabem que o mundo hoje se divide entre os que detêm a tecnologia da bomba atômica e os que não a possuem. Além disso, a China conta com uma poderosa força terrestre fortemente armada, capaz de defender todo o seu amplo território, de uma força naval que está presente nos mares asiáticos e uma força aérea cuja tecnologia foi desenvolvida a partir da transferência da mesma depois da dissolução da União Soviética.

Caça J-11B
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6 de dezembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Cultura, Editoriais | Tags: carreiras internacionais, diferenças de profissionais maduros e os jovens, presenças no Japão
É na música que se sente o impacto da idade de forma mais forte. Ouvir os sons de alguns jovens que encostam seus carros nos cruzamentos do tráfego de São Paulo chega a nos deixar confusos. Seus alto-falantes estão com os decibéis máximos, chegam a tremer os nossos veículos. Não há dúvidas que eles estarão mais surdos que Beethoven no final de suas vidas. Assisti à apresentação de um jovem brasileiro que está, ainda no início de sua carreira, fazendo sucesso no exterior. Sua banda tinha uma bateria tão barulhenta que desequilibrava o resto do conjunto, e saí desanimado do suplício, pensando estar deslocado neste mundo.
Mas hoje tive o privilégio de ter a alma lavada, pois assisti a um estupendo concerto de César Camargo Mariano, este atuante pianista, compositor e arranjador brasileiro e internacional, que depois de uma longa temporada no exterior apresentou-se em São Paulo. Em alguns números, foi acompanhado por outro veterano internacional, Arismar do Espírito Santo. E nos dias precedentes por Teo Cardoso e Ulisses Rocha. São monstros sagrados, que tocam pelo mundo, inclusive com Sadao Watanabe, nos Estados Unidos e no Japão.

Cesar Camargo Mariano, Arismar do Espírito Santo e Sadao Watanabe
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6 de dezembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais, Notícias | Tags: as percepções de certa confusão, evoluções deveriam ser estimulantes, os sentimentos de nostalgias
No mundo no qual vivemos é que fica mais evidente o sentimento filosófico do budismo da transitoriedade e efemeridade de nossas vidas. Estas mudanças que deveriam gerar ambientes estimulantes com as coisas novas que estamos descobrindo e experimentando estão sendo superadas, lamentavelmente, por uma mídia mundial presa aos sentimentos saudosistas dos privilégios que estão sendo derrubados. Angelo Ishii, no seu artigo mensal do Diário de Tóquio, publicado na Folha de S.Paulo, reflete parte deste drama, mostrando a discussão da disparidade social que se acentua na atual literatura japonesa, referindo-se ao que se processa na morna classe média nipônica, que deixa de lado os recordes mundiais de investimentos em pesquisa e desenvolvimento do Japão, que devem superar parte das dificuldades por que passam.
Os problemas enfrentados pelos Estados Unidos, de um governo e economia enfraquecidos, atingidos visceralmente pelas revelações do WikiLeaks, deixam a nação líder mundial nua. Os mais experientes sabem que todos os detalhes divulgados não podem culpar o site, e são usuais nas comunicações diplomáticas, mas quando ficam publicamente expostas criam constrangimentos, obrigando os norte-americanos a se humilharem nas suas solicitações de desculpas no exterior. O grave parece a fragilidade do sistema de sigilo, com vazamentos maciços, que continuarão sendo veiculados pela mídia ávida de escândalos que aumentam as suas audiências.

Angelo Ishii e Julian Assange, criador do WikiLeaks
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3 de dezembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais, Tecnologia | Tags: decisões chinesas, o que se cogita no Brasil, opções indianas, perspectivas de longo prazo
Este site vem insistindo que o futuro dos países emergentes depende da sua disposição em investir em tecnologias de ponta. Consultando os artigos de órgãos de comunicação social relevantes no mundo, nota-se que a China e a Índia tomam posições decididas, como noticia hoje o jornal Valor Econômico. Este utiliza nestas matérias informações provenientes de agências como a Reuters e Bloomberg, mas também revistas importantes como The Economist e jornais internacionais como a Financial Times, Wall Street Journal ou Nikkei contam com inúmeros artigos dando conta dos investimentos feitos em tecnologia pelos dois países, acompanhados por outros menores como a Coreia.
O que se sente é que no Brasil e na América do Sul também se fazem esforços, mas numa escala sensivelmente inferior, sem que haja um plano estratégico para tanto. É claro que os países desenvolvidos, como o Japão, os Estados Unidos e os da Europa, continuam mantendo expressivos investimentos, mas os volumes do que vêm sendo feito pelos países emergentes demonstram suas intenções de conquistar posições de destaque, até de liderança.

Trem rápido chinês e planta de complexo siderúrgico da Mittal na Índia
Esta parece uma corrida em que os que estão correndo serão atropelados pelos mais velozes que estão embalados por maciços investimentos de centenas de bilhões de dólares, contando já com muitos recursos humanos e centros de pesquisas ligadas às instituições como universidades, tanto públicas como privadas. Aproveitam o que já se desenvolveu no exterior e possuem horizontes de prazos longos, com suas milenares histórias.
Informa-se que a Índia vai consolidar “zonas econômicas especiais” que ajudaram a acelerar os recentes desenvolvimentos chineses. O Brasil, apesar de contar com alguns projetos desta natureza, eles foram bloqueados por restrições de grupos que não conseguiram ver num horizonte mais longo. Enquanto o setor financeiro comandar o processo, inclusive de formação da opinião pública, eles que atuam on time, visando resultados de curto prazo, não há como estabelecer um programa sério, elevando o nível de investimento em pesquisas e desenvolvimento, dominando setores pesados da economia, que determinam as perspectivas de prazo mais longo de um país.
O Brasil detém uma quantidade enorme de recursos naturais, uma biodiversidade ímpar no mundo, com limitado número de pesquisados de nível internacional, mas uma capacidade criativa invejável. Ou geramos condições para que eles permaneçam no Brasil efetuando os seus trabalhos, ou eles cuidarão de temas de outros interesses em países que os remuneram adequadamente, mas que pouco se relacionam com as problemáticas brasileiras.
O período de mudança de governo, com a elaboração de novos planos é oportuno para alterações de monta, que marquem as características da nova administração. Precisamos superar as picuinhas relacionadas às vantagens almejadas pelos partidos políticos, e escolher onde serão os setores aonde vamos priorizar os investimentos em pesquisas.
Já estamos avançando nas áreas agropecuárias, nas técnicas de preservação da vida e estamos pesquisando mais no crescimento sustentável, com o aumento de “papers” de nossos pesquisadores em credenciadas revistas internacionais. Mas precisamos fazer muito mais, criando muitos centros de excelência nas novas atividades como produção de equipamentos para a exploração do petróleo em grandes profundidades, aproveitamento da rica biodiversidade nacional, produção de ligas especiais com uso das terras raras e outros minérios, equipamentos pesados para a agroquímica, sensíveis melhorias nas comunicações, logística de um país com grandes extensões e bons portos, uso intensivo dos fatores de produção mais abundantes, economia dos fatores escassos e muitos outros setores estratégicos.
Já provamos que somos capazes, como nos trabalhos da Embrapa, da Embraer, com todas as limitações que são naturais em países emergentes. Já estivemos na ponta da tecnologia em obras de grandes estruturas como em Itaipu. Fomos capazes de implantar um complexo como Carajás. Ocupamos amplas terras aproveitadas extensivamente, e hoje temos uma agricultura competitiva. Mas hoje estamos com a infraestrutura sucateada, tendo que importar tecnologias até na construção civil.
O que estamos fazendo é vergonhosamente pouco diante do que fazem os outros BRICs, nem temos planos sustentáveis de prazo mais longo. Estamos comprometendo os nossos recursos humanos bem como o futuro deste país. Precisamos encarar os nossos desafios, aproveitando as melhores inteligências que dispomos, traçando um programa sério, ou continuaremos sendo produtores e exportadores de produtos de pouco valor agregado. Nossos concorrentes estão ativos, e a distância deles com relação ao Brasil está aumentando, tanto em ritmo de crescimento como na geração de novas tecnologias.
3 de dezembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: Complexo do Alemão, falta de confiança, os Estados Unidos, os problemas mundiais, outros casos, perspectivas da inflação
Os economistas tendem a achar que os agentes econômicos atuam numa sociedade com racionalidade, ou seja, tentam maximizar suas vantagens com o uso dos mecanismos de mercado. As suas teorias estão se tornando muito sofisticadas com modelos de todos os tipos, incluindo previsões de riscos e de expectativas com relação ao futuro, que entendem estar precificadas e antecipadas pelo mercado. Diante da realidade mais complexa, que vai além das hipóteses utilizadas, acabam constatando que existem fatores psicológicos, ideológicos, culturais e outros que acabam sendo mais fortes que os interesses econômicos, complicando as questões econômicas, que deixam de ser tratadas por uma ciência e acabam caindo no campo da arte política.
Os Estados Unidos passam por uma fase difícil, pois, apesar do aumento da sua liquidez, tanto os bancos como as empresas temem efetuar investimentos, ampliando sua capacidade produtiva que poderia ativar sua economia, criando empregos. A fragilidade política do atual governo, adicionando-se as incertezas relacionadas com o futuro, inibe as ampliações do emprego e da renda dos seus recursos humanos. Existem, infelizmente, problemas ideológicos, bem como prazo para a maturação dos investimentos, e eles não se sentem seguros sobre as perspectivas futuras.
As mudanças demográficas que ocorrem em todo o mundo aumentam, relativamente, as populações mais idosas e diminuem os jovens, sobrecarregando os que estão ativos. Os encargos previdenciários e de saúde aumentam a dívida pública, com riscos para a democracia social que procuravam, como na Europa.
Não havendo uma confiança adequada entre os parceiros de um projeto, sempre haverá necessidade de garantias adicionais como forma de reduzir os riscos assumidos. Ainda que o mundo entenda que a expansão está ocorrendo atualmente nos chamados países emergentes, como a China, a Índia, o Brasil e a Rússia, de grandes extensões geográficas e populações expressivas, teme-se sobre a continuidade dos resultados recentemente obtidos. Não adianta bradar que eles estão errados nos seus temores, mas oferecer as informações que os convençam, ainda que isto implique num trabalho cansativo.
A recente crise que começou no sistema habitacional dos Estados Unidos transformou-se em mundial, diante da perda de confiança nas instituições financeiras que paralisaram seus empréstimos para as outras, nas operações internacionais. Ficou evidente que os exageros do sistema financeiro na economia mundial precisam ser controlados, no que eles resistem, procurando disseminar agora o medo sobre a retomada da inflação, que seria combatido com juros mais elevados, ainda que exista deflação em alguns países. Parece ser mais uma questão a ser resolvida com o aumento da produção.
Um exemplo da frágil confiança de natureza diferente ocorreu no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. Quando a população carioca sentiu que a ação coordenada das autoridades locais com o suporte das Forças Armadas era para valer, apoiaram maciçamente esta operação oferecendo com as denúncias muitos endereços onde atuavam os traficantes criminosos. Estabeleceu-se um importante elo de confiança que exige um longo trabalho detalhado e aperfeiçoado para ser consolidado. Mesmo dentro de pequenas organizações como um hospital, na medida em que não exista um mecanismo adequado para a convivência de grupos que pensam de formas diferentes, os projetos futuros ficam mais difíceis.
Parece que estes aspectos psicológicos coletivos são importantes de serem entendidos, onde a capacidade de comunicação social adequada torna-se importante. A hipótese de comportamento hedonístico dos seres humanos, na qual se baseia os economistas, pode ser questionada, no mínimo. No Brasil, internamente parece que se conseguiu estabelecer uma confiança razoável, apesar de aspectos que ainda podem ser corrigidos, mas parece que há necessidade de um intenso trabalho de convencimento de alguns grupos estrangeiros que podem ajudar em alguns projetos nacionais.
27 de novembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: exemplos asiáticos, não se pode tentar conviver, uma luta sem tréguas
Por mais assustadora que seja para a população do Rio de Janeiro e do Brasil, a decisão de um forte engajamento inclusive das Forças Armadas no combate ao crime organizado relacionado com o comércio de drogas, que chegaram a dominar algumas favelas, ela é uma imperiosa necessidade, e está recebendo o apoio dos cariocas, e deve contar com uma solidariedade nacional que vá além das palavras. Lamentavelmente, houve algumas autoridades, no passado que, diante da magnitude da tarefa de impor a ordem legal, pensaram que poderiam conviver, ainda que secretamente, com estas facções criminosas, que acabaram ganhando vulto diante da demanda existente destas drogas.
É importante ter a consciência que o maior culpado de todo o problema que enfrentamos são os consumidores de drogas, muitos que se apresentam como se fossem cidadãos dignos, com elevada posição social, até com elevado poder de corrupção.
A própria legislação precisa ser revista, impondo maior rigor, principalmente no cerceamento dos meios de comunicação dos líderes criminosos já presos, para que não continuem comandando dos presídios operações que acabam se caracterizando como um terrorismo urbano. Os direitos humanos são importantes, com prioridade para os bons cidadãos, e não para os criminosos. Ninguém é a favor da violência, mas as autoridades policiais precisam contar com o respaldo da população brasileira, com apoio legal e estarem equipados adequadamente para esta verdadeira guerra interna, que é de longo prazo.
É preciso que haja um grande programa nacional para educar a população contra o uso de drogas, principalmente dos mais ricos e famosos, que são consumidores conhecidos e contumazes, com amplas assistências para a recuperação dos viciados. É preciso que haja uma guerra nacional contra estas drogas, produzidas internamente, mas principalmente as importadas, bem como dos armamentos que dotam os criminosos com poder de fogo maior que das autoridades locais.
Muitos países asiáticos, que sofreram com drogas como o ópio, hoje são extremamente rigorosos, inclusive com portadores de grandes volumes destas drogas, ainda que aleguem ser de uso pessoal, até com alguns brasileiros presos com longas penas nestes países. Muitos países que acreditavam que a luta contra elas era insana, interminável, já chegaram a pontos considerados razoáveis, e continuam extirpar estas atividades do seu cotidiano.
Não podemos ser tolerantes, mesmo com aqueles que são considerados “leves”, pois acabam sustentando organizações criminosas que trabalham com os mais pesados, que chegam a constituir quase um governo paralelo, com alguns quistos onde as autoridades não conseguem chegar.
Não podem se resumir nas eventuais operações espetaculares que impressionam a todos. Mas um trabalho contínuo, usando o que melhor se dispõe dos serviços de inteligência. Neste final de administração federal e transição para o novo, mesmo com o risco de imagens negativas espalhadas por todo o mundo, pode se acreditar que uma decisão forte no seu combate acabará dando resultados que precisamos com vistas aos eventos de grande visibilidade como as Olimpíadas e a Copa do Mundo.
Mas, acima de tudo, o que está em jogo é o futuro dos brasileiros, que merecem um grande esforço constante, para que os jovens não sejam obrigados a trabalhar nas organizações criminosas, ou sejam vítimas inocentes de um terrorismo insano. É sempre importante lembrar que já houve, ao longo da história, países que foram dominados pelas drogas, e hoje estão com os mesmos controlados, com trabalhos como os que devemos fazer.
23 de novembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: notícias internacionais, problemas no Norte, sucessão, tensão permanente | 2 Comentários »
Todos os jornais e sites noticiam os lamentáveis reinícios dos conflitos entre a Coreia do Norte e do Sul, com o uso de artilharias do Norte sobre uma ilha do Sul que já provocaram sacrifícios de vidas, bem como danos físicos a muitos, provocando retaliações do Sul. As mais importantes potências mundiais estão solicitando calma para não ocorrer uma escalada perigosa para uma guerra aberta. Estive recentemente em Panmunjon, na chamada Zona Desmilitarizada que separa os dois países, sentindo a tensão existente entre as partes, com armas voltadas uns contra outros. Nunca houve um tratado de paz, e as duas partes continuam numa guerra de verdade.
Estes conflitos ocorrem num particular momento crítico em que o Norte passa por grandes dificuldades econômicas, mas insiste em manter um agressivo programa nuclear, confirmado por um cientista que visitou as instalações onde se processam os enriquecimentos de urânio, em quantidade superior para seu uso pacífico. Levanta-se a suspeita que esta perigosa jogada pode fazer parte de uma tentativa de negociar uma ajuda substancial internacional, ainda que não haja a menor simpatia para tanto.
O atual líder autoritário que herdou a sua posição do seu pai, que tudo indica está muito adoecido, processa a sucessão para o seu filho, que pode encontrar resistências depois de longos períodos de grande sacrifício. O esquema de sua sustentação interna pode estar se deteriorando, mas é difícil de ser avaliado do exterior.
Todos sabem que a Coreia do Norte só pode viver com o suporte da China, tendo no passado contado com o da Rússia, no tempo da guerra fria. A do Sul conta com o suporte dos Estados Unidos, cujas tropas estão estacionadas em seus territórios. Ao mesmo tempo, os foguetes que os coreanos do norte dispõem possuem alcance para atingir o Japão, que fica muito próximo geograficamente.

As beligerantes coreias e seus vizinhos China e Japão
Já houve incidentes entre as duas partes no passado que envolveu mortes, e apesar dos esforços que se fazem para a redução das tensões, o atual conflito ocorre numa região sensível para toda a Ásia, num momento economicamente difícil para muitos países do mundo.
É costumeiro, quando se acumulam dificuldades internas, que problemas externos sejam enfatizados ou dramatizados, na tentativa de provocar uma aglutinação interna, com intensa propaganda política, principalmente nestes regimes autoritários. Tudo indica que num primeiro momento vai se tentar resolver os problemas de forma regional, ainda que isto não seja fácil com a crescente redução do poder militar norte-americano, com os desgastes sofridos no Iraque e no Afeganistão.
A China, recentemente visitada pelo atual líder da Coreia do Norte, acompanhado do seu filho, situa-se cada vez mais como o fiel da balança, mesmo com as críticas que vem recebendo, sobre a sua política cambial e comercial, em diversos fóruns internacionais. A única coisa clara é que mais este conflito em nada ajuda a resolver os problemas econômicos, ainda que todos tenham que aumentar novamente os seus investimentos em segurança externa, como desejam os mais radicais.
19 de novembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: a reunião do Grupo dos 20, evolução do Partido Comunista Chinês, pontos de vista dos vizinhos, reunião da APEC
Observando-se atentamente o que vem acontecendo na China nos últimos anos, nota-se um forte pragmatismo diante da evolução dos acontecimentos que os afetam, e isto tem sido sua marca mais importante. No livro do jornalista Richard McGregor, antigo chefe do bureau do Financial Time na China, “O Partido – O Mundo Secreto dos Dirigentes Comunistas da China” (tradução livre), publicado este ano, o autor levanta algumas perguntas sobre qual seria o modelo que eles perseguem, depois de Deng Xiaping. Seria uma benevolente autocracia do tipo de Cingapura (com lideranças de raízes chinesas)? Um Estado capitalista desenvolvimentista como alguns têm chamado o Japão (mais socializado que muitos países chamados comunistas)? Um Neoconfucionismo (que recomenda uma hierarquização na sociedade) misturado com economia de mercado? Uma lenta (em eficiência) versão como a Rússia pós-soviética? Um socialismo de barões desonestos (que redistribuíam seus lucros em ações beneficentes)? Ou algo diferente baseado no “Consenso de Beijing” (que ninguém sabe o que é ao certo, mas que se contraporia ao de “Consenso de Washington” com condições listadas, mas nunca implementadas). Parece difícil de classificar a China atual em qualquer destes “modelos”.
O que alguns editoriais como do jornal japonês Nikkei tentam esboçar, podendo refletir o simples desejo de um vizinho bastante afetado pelos chineses, é que parece ter havido uma evolução entre a reunião do G20 em Seul e a reunião da APEC em Yokohama na posição da China, mostrando que existe um elevado pragmatismo na sua política externa.

Reunião de cúpula do G20 em Seul, Coreia do Sul, que reuniu os líderes de países ricos e dos principais emergentes
Para um país que almeja continuar crescendo rapidamente, podendo-se tornar o mais importante do mundo nos próximos anos, não há interesse em ser confrontado com críticas generalizadas diante de sua política cambial e comercial, ao que soma as restrições para a exportação de minerais estratégicos como terras raras. Também não interessa continuar a ser alvo de pressões externas diante de dissidências internas, como a que foi premiada como Prêmio Nobel da Paz. Não lhe parece convenientes os aprofundamentos das desgastantes tensões de disputas territoriais com seus vizinhos. Não lhe interessa ser taxado como um país que procura sua estabilidade social interna a qualquer custo. Os chineses sabem que precisam conviver num mundo globalizado, que possuem organismos com regras consolidadas, o que procuram fazer dentro do cronograma de sua conveniência.

Líderes das 21 nações que compõem o bloco da Cooperação Econômica da Ásia e do Pacífico durante encontro no Japão
O que se sentiu, e ainda pode ser uma mera impressão, é que os chineses passaram a adotar uma orientação mais suavizada, mais contemporizadora, enfatizando a necessidade da cooperação internacional, mostrando-se sensíveis às críticas internacionais. Procuraram fortalecer suas relações bilaterais e regionais. Eles almejam a liderança num mundo sadio, não herdar um globo arrasado.
Vão continuar procurando as fontes de matérias-primas que necessitam, em todos os continentes, concedendo maior prioridade à expansão do seu mercado interno, necessitam continuar a exportar para todo o mundo, mas sabem suficientemente que não podem forçar a ponto de contar somente com hostilidades de todas as partes, como sempre foi de sua boa tradição comercial.
O que se espera é que os que negociam com os chineses, parceiros próximos ou distantes, também tenham aperfeiçoado suas técnicas, defendendo com convicção seus claros interesses nacionais, pois os dirigentes da China são extremamente preparados, possuindo um sistema eficiente de planejamento a longo prazo, e de ação coordenada do governo, estatais e empresas privadas.
16 de novembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: Irã dos dias atuais, o Iraque e a Mesopotâmia, o Ocidente não conhece o Oriente, Rússia e sua Sibéria | 2 Comentários »
Ainda que tenhamos uma ideia superficial da realidade de alguns países de longas histórias, culturas importantes, relevância no cenário internacional, e outras suas características marcantes, somos induzidos a gigantescos equívocos, em parte por uma mídia engajada na disseminação de inverdades.
Esquecemos que o Iraque é herdeira da antiga Mesopotâmia, que teve a sua estupenda Babilônia com seus jardins suspensos, país donde poucos resquícios eu tive a oportunidade de conhecer numa memorável exposição realizada há tempos no Museu do Oriente Médio, em Paris. Foram humilhados por anos por tropas de ocupação, recentemente, formados de coitados comandados por aqueles que deveriam ser submetidos ao Tribunal de Haia.

Representação dos jardins suspensos da Babilónia, como imaginados por Martin Heemskerck.
Minha filha visita atualmente o Irã, de onde me relata pela internet e pelo telefone uma admirável hospitalidade do seu povo, que a levou a empreender a viagem que me preocupava, onde as mulheres se comportam como se estivesse em Istambul, na Turquia, vestindo calças jeans. Isto me traz a memória que aquele país é a herdeira do fabuloso Império Persa, hoje transformado num lamentável inferno a ser destruído, instigado por parte da mídia que atende a alguns interesses distorcidos. Ela, que cavalgou pelos desertos da Jordânia, acha que as condições que hoje encontra são superiores às daquele país.

Minha limitada experiência com a Rússia não me permite fazer uma correta noção do frio de Moscou, ainda que muitas vezes relatado por um auxiliar brasileiro do nosso escritório, hoje um respeitável economista num banco brasileiro de grande prestígio. Ele me informava sobre a sua infância vivida naquela cidade, quando as aulas eram suspensas nos invernos rigorosos, os canos de água ficavam congelados, e as urinas dos adolescentes chegavam ao chão como pedrinhas de gelo. O máximo de frio que passei, por pouco tempo, foi pelo menos 20 graus numa base aérea do Alasca ou no festival do gelo em Hokaido.
O impressionante relato de Teruyo Nogami, da filmagem de Dersu Uzala, dirigido por Akira Kurosawa, por todo um longo inverno siberiano, até numa tomada noturna com a temperatura de 40 graus abaixo de zero, faz-me dar mais valor àquele filme a que assisti muito emocionado.

Sempre pensei que os carrapatos do tipo conhecido como pólvora, invisíveis, mas extremamente incômodos na virilha por baixo das calças, era uma experiência tropical terrível porque passei na Amazônia. Não é que ela me relata algo parecido na Sibéria com estas pragas, bem com banheiros malcheirosos iguais aos que encontrei nos garimpos e outros confins deste Brasil?
Tive o privilégio de viajar por muitos países do mundo, até as suas regiões mais afastadas, estudando um pouco das suas histórias. Ainda assim, tenho que reconhecer que são sei nada e tenho que continuar aprendendo muito, consciente que nada observado pontualmente pode ser generalizado. Só deixei de considerar outros povos que vivem de forma diferente dos nossos, como bárbaros.
15 de novembro de 2010
Por: Paulo Yokota | Seção: Editoriais | Tags: estudos sociológicos, mobilidade geográfica, um fenômeno universal
Um notável professor de sociologia da FEA – Universidade de São Paulo, professor Heraldo Barbuy, nos ensinava sobre os estudos sociológicos das ascensões e declínios de regiões, inclusive dentro das grandes metrópoles. Havia uma tendência de um centro dinâmico, depois uma faixa com a formação de áreas decadentes, cercada por uma área em ascensão, até chegar à periferia. Um artigo publicado no The New York Times e reproduzido no suplemento da Folha de S.Paulo, do jornalista Edward Wong sobre Jili, na Província de Zhejiang, na China, nos leva a reflexões sobre o assunto.
Jili, segundo o artigo, teria sido a região onde se originou a produção da seda há cerca de 4.000 a.C., sendo o sinônimo de seda de boa qualidade na Dinastia Qing, com produção manual, quando vestia os imperadores da China. Passou por um longo período de prosperidade, inclusive no áureo da Rota da Seda. Com o seu declínio provocado pela produção da seda, inclusive industrial em outras localidades, hoje, os jovens da região procuram emigrar na procura de trabalhos nas regiões mais dinâmicas, restando uma pequena indústria não competitiva na cidade.

Rota da Seda: as estradas estão indicadas em vermelho e a rota na água em azul
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