Tentando aproximar a √Āsia da Am√©rica do Sul e vice-versa

Dilma Rousseff Refere-se aos Problemas Japoneses

17 de março de 2011
Por: Paulo Yokota | Seção: Not√≠cias | Tags: Dilma Roussef chocada com o que aconteceu no Jap√£o, entrevista no Valor Econ√īmico | 2 Comentários »

A Presidente Dilma Rousseff deu uma longa entrevista para Claudia Safatle, do Valor Econ√īmico, referindo-se tamb√©m ao terremoto e tsunami no Jap√£o, cuja √≠ntegra publicamos a seguir.

Dilma vai adotar regime de concess√£o para aeroportos

Valor, 17 de Março de 2011

Feito por: Claudia Safatle

A presidente Dilma Rousseff anunciou que vai abrir os aeroportos do pa√≠s ao regime de concess√Ķes para explora√ß√£o do setor privado. Disse, tamb√©m, que √© preciso acabar com o incentivo fiscal dado por v√°rios Estados que reduziram para apenas 3% a al√≠quota do ICMS para bens importados que chegam ao pa√≠s por seus portos. "Est√£o entrando no Brasil produtos importados com o ICMS l√° embaixo. √Č uma guerra fiscal que detona toda a cadeia produtiva daquele setor", comentou a presidente, citando proposta de projeto de lei que j√° se encontra no Senado para acabar com essa distor√ß√£o.

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"Temos que apostar que o pré-sal é um passaporte para o futuro. Não vamos explorar para usar, mas para exportar. Queremos nossa matriz energética limpa e queremos, também, ter ganhos na cadeia industrial do petróleo", disse a presidente Dilma Rousseff ao Valor, na primeira entrevista exclusiva concedida a um jornal brasileiro.

Dilma j√° definiu as propostas que enviar√° ao Congresso ainda neste semestre: a cria√ß√£o do Programa Nacional de Ensino T√©cnico (Pronatec) e do Programa de Erradica√ß√£o da Pobreza, al√©m de medidas espec√≠ficas que alteram alguns tributos (e n√£o uma proposta de reforma tribut√°ria). Ela admitiu, tamb√©m, concluir a regulamenta√ß√£o da reforma da previd√™ncia do servidor p√ļblico, com a aprova√ß√£o da proposta que institui os fundos de pens√£o complementar. "Mas n√£o vamos tirar direitos do trabalhador, n√£o", assegurou.

Em entrevista ao Valor, a primeira concedida a um jornal brasileiro, a presidente adiantou: "Agora n√≥s estamos nos preparando para fazer uma forte interven√ß√£o nos aeroportos. Vamos fazer concess√Ķes, aceitar investimentos da iniciativa privada que sejam adequados aos planos de expans√£o necess√°rios. N√£o temos preconceito contra nenhuma forma de expans√£o do investimento nessa √°rea, como n√£o tivemos nas rodovias." At√© o fim do m√™s ela deve enviar ao Congresso a medida provis√≥ria que cria a Secretaria de Avia√ß√£o Civil com status de minist√©rio, que agregar√° a Anac, a Infraero e toda a estrutura para fazer a pol√≠tica de avia√ß√£o.

Diante da falta de m√£o de obra tecnicamente qualificada para atender √† demanda de uma economia que cresce, o governo est√° concluindo o desenho do Pronatec, programa de pretende garantir que o ensino m√©dio tenha um componente complementar profissionalizante. Promessa de campanha, o projeto de erradica√ß√£o da pobreza ter√° como meta retirar o m√°ximo poss√≠vel dos 19 milh√Ķes de brasileiros da situa√ß√£o de mis√©ria que ainda se encontram.

Desta vez, porém, o programa virá acompanhado de portas de saída, disse. A erradicação da pobreza usará o instrumental reformulado do Bolsa Família e terá tanto no Pronatec, quanto nos mecanismos do microcrédito e de novos incentivo à agricultura familiar, as portas de saída da mera assistência social. "Estamos passando as tropas em revista e mudando muita coisa", comentou a presidente. Nada disso, porém, prescinde do crescimento da economia. A seguir, a entrevista:

Valor: Qual o impacto do desastre no Jap√£o sobre a economia mundial e sobre o Brasil?

Dilma Rousseff: Primeiro, acho que ficamos todos muito impactados. A comunicação global em tempo real cria em nós uma sensação como se o terremoto seguido do tsunami estivessem na porta de nossas casas. Nunca vi ondas daquele tamanho, aquele barco girando no redemoinho, a quantidade de carros que pareciam de brinquedo! Inexoravelmente, a comunicação faz com que você se coloque no lugar das pessoas! Essa é a primeira reação humana. Acredito, numa reflexão mais fria depois do evento, se é que podemos chamar alguma coisa de fria no Japão, acho que um dos efeitos será sobre o petróleo.

"N√£o h√° inconsist√™ncia em cortar R$ 50 bilh√Ķes do Or√ßamento e repassar R$ 55 bilh√Ķes para o BNDES investir"

Valor: Aumento de preço?

Dilma: Vai ampliar muito a demanda de petróleo ou de gás para substituir a energia nuclear. Pelo que li, 40% da energia de base do Japão é nuclear. Os substitutos mais rápidos e efetivos são o gás natural ou petróleo. Acredito que esse será um impacto imediato. Nós sempre esquecemos da diferença substantiva entre nós e os outros países.

Valor: Qual?

Dilma: √Āgua. Nesse aspecto somos um pa√≠s aben√ßoado. N√£o tenho ideia de qual vai ser a pol√≠tica de substitui√ß√£o de energia. N√£o sei como a Alemanha, por exemplo, vai fazer. Os Estados Unidos j√° declararam que n√£o v√£o interromper o programa nuclear. N√≥s n√£o temos a mesma depend√™ncia. Temos um elenco de alternativas que os outros pa√≠ses n√£o t√™m. A Europa j√° usou todo o seu potencial h√≠drico. Energia √© algo que define o ritmo de crescimento dos pa√≠ses e o Brasil tem na energia uma diferen√ßa estrat√©gica e competitiva.

Valor: E tem o pré-sal. O governo poderia acelerar o programa de exploração?

Dilma: N√£o. Vamos seguir num ritmo que n√£o transforma o petr√≥leo em uma maldi√ß√£o. Queremos ter uma ind√ļstria de petr√≥leo, desenvolver pesquisas, produzir bens e servi√ßos e exportar para o mundo. N√£o podemos apostar em ganhos f√°ceis. Temos que apostar que o pr√©-sal √© um passaporte para o futuro. N√£o vamos explorar para usar, mas para exportar. Queremos nossa matriz energ√©tica limpa e queremos, tamb√©m, ter ganhos na cadeia industrial do petr√≥leo. Esse √© um pa√≠s continental com uma ind√ļstria sofisticada e uma das maiores democracias do mundo. N√£o somos um paisinho.

Valor: A sra. acha que a tragédia no Japão vai atrasar a recuperação da economia mundial?

Dilma: Acredito que atrasa um pouco, mas tamb√©m tem um efeito recuperador, de reconstru√ß√£o. O Jap√£o vai ter que ser reconstru√≠do. √Č impressionante o que √© natureza. Nem nos piores pesadelos conseguimos saber o que √© uma onda de dez metros.

Valor: O esforço de reconstrução de uma parte do Japão deve demandar grandes somas de recursos. Isso pode reduzir o fluxo de capitais para o Brasil?

Dilma: Pode ter um efeito desses. Acho que vai haver um maior fluxo de dinheiro para lá e isso não é maléfico. Tem dinheiro sobrando para tudo no mundo. Para a reconstrução do Japão, para investir aqui e para especular.

Valor: O governo, preocupado com a taxa de c√Ęmbio, tem mencionado a necessidade de novas medidas. Uma delas seria encarecer os empr√©stimos externos para frear o processo de endividamento de bancos e empresas? A sra. j√° aprovou essas medidas?

Dilma: Primeiro, é preciso distinguir o que é dívida para investimentos do que é dívida de curto prazo. Imagino que quem está se endividando esteja fazendo "hedge". Todo mundo aí é adulto.

Valor: Mas o governo prepara um pacote de medidas cambiais?

Dilma: Tem uma coisa que acho fant√°stica. √Äs vezes abro o jornal e leio que a presidenta disse isso, pensa aquilo, e eu nunca abri minha santa boca para dizer nada daquilo. Tem avalia√ß√Ķes de que um ministro subiu, outro desceu, que s√£o absurdas. Absurdas! Falam que tais ministros est√£o desvalorizad√≠ssimos na bolsa de apostas. Acho que o governo n√£o pode se pautar por esse tipo de avalia√ß√£o. Nenhum presidente avalia seus ministros dessa forma. E nenhum presidente pode fazer pacotes de acordo com o flutuar das coisas. Toma-se medidas que tem a ver com o que se est√° fazendo. Mas posso lhe adiantar algumas coisas.

Valor: Quais?

Dilma: Eu n√£o vou permitir que a infla√ß√£o volte no Brasil. N√£o permitirei que a infla√ß√£o, sob qualquer circunst√Ęncia, volte. Tamb√©m n√£o acredito nas regras que falam, em mar√ßo, que o Brasil n√£o crescer√° este ano. Tenho certeza que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% este ano. N√£o tem nenhuma inconsist√™ncia em cortar R$ 50 bilh√Ķes no Or√ßamento e repassar R$ 55 bilh√Ķes para o BNDES garantir os financiamentos do programa de sustenta√ß√£o do investimento. N√£o tem nenhuma inconsist√™ncia com o fato de que o pa√≠s pode aumentar a sua oferta de bens e servi√ßos aumentando seus investimentos. E ao faz√™-lo vai contribuir para diminuir qualquer press√£o de demanda. Hoje, eu acho que aquela velha discuss√£o sobre qual √© o potencial de crescimento do pa√≠s tem que ser revista.

Valor: Revista como?

Dilma: Você se lembra que diziam que o PIB potencial era de 3,5%? Depois aumentou, e baixou novamente durante a crise global, pela queda dos investimentos, não? E aumentou em 2010, com crescimento de 7,5% puxado pelo aumento de bens de capital. Então, isso não é consistente.

Valor: A sra. comunga ou não da ideia de que é possível ter um pouquinho mais de inflação para obter um pouco mais de crescimento?

Dilma: Isso n√£o funciona. √Č aquela velha imagem da pequena gravidez. N√£o tem uma pequena gravidez. Ou tem gravidez ou n√£o tem. Agora, n√£o farei qualquer negocia√ß√£o com a taxa de infla√ß√£o. N√£o farei. E n√£o acho que a infla√ß√£o no Brasil seja de demanda.

Valor: N√£o?

Dilma: Pode ser que essa seja a diverg√™ncia que n√≥s temos com alguns segmentos. N√≥s n√£o achamos que ela √© de demanda. Achamos que h√° alguns desequil√≠brios em alguns setores, mas √© inequ√≠voco que houve nos √ļltimos tempos um crescimento dos pre√ßos dos alimentos, que j√° reduziu. Teve aumento do pre√ßo do material escolar, dos transportes urbanos, que s√£o sazonais.

Valor: E a inflação de serviços que já passa de 8%?

Dilma: Há crescimento da inflação de serviços e isso temos que acompanhar. Mas o que não é possível é falar que o Brasil está crescendo além da sua capacidade e que, portanto, tem um crescimento pressionando a inflação. O mundo inteiro, na área dos emergentes, está passando por isso. Houve um processo de pressão inflacionária que tem componente ligado às commodities e, no Brasil, tem o fator inercial. Mas é compatível segurar a inflação e ter uma taxa de crescimento sustentável para o país. Caso contrário, é aquela velha tese: tem que derrubar a economia brasileira.

Valor: Derrubar o crescimento?

Dilma: N√≥s n√£o vamos fazer isso. N√£o vamos e n√£o estamos fazendo. Estamos tomando as medidas s√©rias e s√≥brias. Estamos contendo os gastos p√ļblicos. Tanto estamos que os resultados do super√°vit prim√°rio de janeiro e fevereiro v√£o fechar de forma significativa para o que queremos. Vamos conter o custeio do governo. Estamos esfriando ao m√°ximo a expans√£o do custeio. Agora, n√£o precisamos expandir o investimento para al√©m do maior investimento que tivemos, que foi o do ano passado. Vamos mant√™-lo alto. Olhe quanto investimos em janeiro: R$ 2,5 bilh√Ķes pagos. O pessoal fala dos restos a pagar. Ningu√©m faz plano de investimento de longo prazo no Brasil sem fazer restos a pagar.

Valor: S√£o mais de R$ 120 bilh√Ķes. N√£o est√° muito alto?

Dilma: Por qu√™? Ou nosso investimento √© baixo ou √© alto. Eu levei dois anos – 2007 e 2008 – brigando para fazer a BR-163, entre o Paran√° e o Mato Grosso. √Č todo o escoamento da nossa produ√ß√£o e agora ela decolou. Est√° em regime de cruzeiro. Estamos nos preparando para ter uma forte interven√ß√£o nos aeroportos.

Valor: Intervenção como?

Dilma: Vamos fazer concess√Ķes, aceitar investimentos da iniciativa privada que sejam adequados aos planos de expans√£o necess√°rios. Vamos articular a expans√£o de aeroportos com recursos p√ļblicos e fazer concess√Ķes ao setor privado. N√£o temos preconceito contra nenhuma forma de expans√£o do investimento nessa √°rea, como n√£o tivemos nas rodovias. Porque n√£o fizemos a BR-163 quando eu era chefe da Casa Civil?

Valor: Por quê?

Dilma: Quando cheguei na Casa Civil havia um projeto para privatizá-la completamente. Esse projeto virou projeto de concessão e eu o recebi assim. Fomos olhá-lo e sabe quanto era o cálculo da tarifa média? R$ 900. Isso mostra que essa rodovia não era compatível com concessão. Talvez no futuro, quando tivesse que duplicar, fosse por concessão porque ela já teria se desenvolvido e criado fontes geradoras para si mesma. A Regis Bittencourt dá para fazer concessão, pois ela se mantém. O que não é possível é usar o mesmo remédio para todos os problemas.

Valor: E como ser√° para os aeroportos?

Dilma: Vamos fazer concess√£o do que existe – fazer um novo terminal, por exemplo. Posso fazer concess√£o administrativa com cl√°usula de expans√£o. Posso fazer concess√£o onde nada existe, como a constru√ß√£o de um aeroporto da mesma forma que se faz numa hidrel√©trica. √Č poss√≠vel que haja necessidade de investimentos p√ļblicos em alguns aeroportos. O Brasil ter√° que ter aeroportos regionais. N√≥s vamos criar a Secretaria de Avia√ß√£o Civil com status de minist√©rio, porque queremos uma verdadeira transforma√ß√£o nessa √°rea. Para ela ir√° a Anac, a Infraero e toda a estrutura para fazer a pol√≠tica.

"Nós não achamos que ela [a inflação] é de demanda. Achamos que há alguns desequilíbrios em alguns setores."

Valor: Quando a sra. vai mandar para o Congresso a medida provisória que cria a secretaria?

Dilma: Estou pensando em mandar até o fim deste mês.

Valor: Quem vai ocupar a pasta da Aviação?

Dilma: Ainda estamos discutindo em várias esferas um nome para a aviação civil.

Valor: O nome do Rossano Maranh√£o n√£o est√° confirmado?

Dilma: Nós sempre pensamos no Rossano para várias coisas. Não só eu. O presidente Lula também. Nós o consideramos um excepcional executivo.

Valor: Eu gostaria de voltar √† quest√£o da infla√ß√£o. A sra. disse que n√£o vai derrubar a economia e vai derrubar a infla√ß√£o. √Č isso?

Dilma: Não é só isso. Eu não negocio com inflação.

Valor: Há quem argumente, na ponta do lápis, que não é possível reduzir a inflação de 6% para 4,5% e crescer 4,5% a 5% ao ano.

Dilma: Voc√™ pode fazer v√°rias contas. √Č s√≥ fazer um modelo matem√°tico. Agora, se ela √© real…

Valor: Mesmo com o corte de R$ 50 bilh√Ķes nos gastos p√ļblicos, a pol√≠tica fiscal do governo n√£o √© contracionista de demanda. Ela √© menos expansionista do que foi no ano passado.

Dilma: Ela é uma política de consolidação fiscal.

Valor: O que significa isso?

Dilma: √Č porque achamos que o que estamos fazendo n√£o √©… √Č como cortar as unhas. Vamos ter que fazer sempre a consolida√ß√£o fiscal. Na verdade, temos que fazer isso todos os anos, pois se voc√™ n√£o olhar alguns gastos, eles explodem. Se libera os gastos de custeio, um dia voc√™ acorda e ele est√° imenso. Ent√£o, voc√™ tem que cortar as unhas, sempre. N√≥s estamos cortando as unhas do custeio, vamos cortar mais e vamos fazer uma pol√≠tica de gerenciar esse governo. Estamos passando em revista tudo o que pode ser cortado e isso tem que ser feito todos os anos.

Valor: O que significa não negociar com a inflação do ponto de vista de cumprimento da meta?

Dilma: Significa que a meta √© de 4,5% e n√≥s vamos perseguir 4,5%. Tem banda para cima, banda para baixo (margem de toler√Ęncia de 2 pontos percentuais), mas n√≥s sempre tentamos, apesar da banda, for√ßar a infla√ß√£o para a meta at√© t√™-la no centro.

Valor: Os mercados n√£o est√£o acreditando nisso. Acham que o Banco Central foi frouxo no aumento dos juros, at√© porque o Pal√°cio do Planalto teria autorizado um aumento de 0,75 ponto percentual e o presidente do BC (Alexandre Tombini) n√£o usou essa autoriza√ß√£o…

Dilma: Eu n√£o vejo o Tombini h√° um m√™s, n√£o vejo e n√£o falo. Aproximadamente… eu lembro uma vez que ele viajou e a √ļltima vez que falei com ele foi antes dessa viagem.

Valor: O Tombini √© "dovish" [neologismo ingl√™s derivado de ‘dove’, pombo, que indica um defensor de juros mais baixas e com postura mais tolerante com a infla√ß√£o]?

Dilma: E eu sou arara (risos).

Valor: Preocupa a descrença dos mercados na política antiinflacionária?

Dilma: O mercado todo apostou que esse pa√≠s ia para o belel√©u em 2009. E no fim de 2009 a economia j√° tinha come√ßado a se recuperar. O mercado apostou numa taxa de juro elevad√≠ssima quando o mundo j√° estava em recess√£o. Ent√£o eu acho que o mercado acerta, erra, acerta, erra, acerta. N√£o acho que temos que desconsiderar o mercado, n√£o. A gente tem que sempre estar atento √† opini√£o dele, que integra um dos elementos importantes da realidade. Um dos principais, mas n√£o o √ļnico. Eu vou considerar essa hist√≥ria de "dovish" e "hawkish" (pombo ou falc√£o) uma brincadeira, um anglicismo.

"Eu acredito num Banco Central extremamente profissional e aut√īnomo. E esse Banco Central ser√° profissional e aut√īnomo."

Valor: Mas o BC, no seu governo, tem autonomia?

Dilma: O Banco Central tem autonomia para fazer a pol√≠tica dele e est√° fazendo. Tenho tranquilidade de dizer que em nenhum momento eu tergiverso com infla√ß√£o. E n√£o acredito que o Banco Central o fa√ßa. Eu acredito num Banco Central extremamente profissional e aut√īnomo. E esse Banco Central ser√° profissional e aut√īnomo. N√£o sei se n√£o est√£o tentando diminuir a import√Ęncia desse BC.

Valor: Por quê?

Dilma: Porque n√£o tem gente do mercado na sua diretoria.

Valor: Mas pode vir a ter?

Dilma: Pode ter, sim. Falar que tem que ser assim ou assado é um besteirol. Desde que seja um nome bom, ele pode vir de onde vier.

Valor: A opção por fazer uma política monetária diferente, mesclada de juros e medidas prudenciais, pode estar criando um mal-estar?

Dilma: O mercado tem os seus instrumentos tradicionais, mas tem também os incorporados recentemente, no pós-crise. Você tem que fazer essa combinação. Não pode ser fundamentalista, não é bom. Conte com os dois que o efeito ocorre.

Valor: A sra. reiterou a meta de inflação de 4,5%, mas não mais para este ano, não é?

Dilma: Sobre isso, tem um artigo interessante escrito pelo Delfim (na edição de terça-feira do Valor), a respeito de que não existe uma lei divina que diz que a taxa de crescimento será de 3% e que a inflação será de 6%. Eu acho que isso é adivinhação.

Valor: As condi√ß√Ķes para o ano de 2011 n√£o est√£o dadas?

Dilma: Não, depende da gente. Nós mostramos que não estava dado na hora da crise e vamos mostrar que não está dado também na hora da inflação e do crescimento sustentado da economia brasileira. Quando eu digo que tenho firme convicção de que não se negocia com a inflação, é para você saber que nós passamos todo o tempo olhando isso. Por isso eu acredito no que faz o Banco Central, no que faz o Ministério da Fazenda.

Valor: Tem um elemento já dado para 2012 que preocupa os analistas: a superindexação do salário mínimo no momento em que o país estará em plena luta antiinflacionária. Não seria hora, depois de 17 anos de plano de estabilização, de se desindexar tudo?

Dilma: No futuro nós vamos ter uma menor preocupação com a valorização do salário mínimo. Quando? Quando houver um crescimento sustentado nesse país.

Valor: Isso não dificulta o combate à inflação?

Dilma: O que aconteceu com o sal√°rio m√≠nimo ao longo do tempo? Uma baita desvaloriza√ß√£o. Seja porque ele n√£o ganhava sequer a corre√ß√£o inflacion√°ria, seja porque vinha de patamares muito baixos. Acho que o processo de valoriza√ß√£o do sal√°rio m√≠nimo ainda n√£o se esgotou. Foi isso que n√≥s sinalizamos aquele dia na C√Ęmara (na vota√ß√£o da proposta de corre√ß√£o pela infla√ß√£o e pelo PIB at√© 2015). N√≥s n√£o fazemos qualquer neg√≥cio. Quando a economia vai mal, n√≥s n√£o vamos dar reajuste, ele ser√° zero. Vamos dar a infla√ß√£o. Quando a economia vai bem, com um atraso de um ano, n√≥s damos o que a economia ganhou ali, porque acreditamos que houve um ganho global de produtividade e de crescimento sist√™mico. O prazo de um ano (o reajuste √© dado pelo PIB de dois anos anteriores) amortece, mas transfere ao trabalhador um ganho que √© dele, √© da economia como um todo.

Valor: Esse é um assunto resolvido até 2015, portanto?

Dilma: Dar ao trabalhador o direito de receber o ganho decorrente do crescimento do país, com o cuidado de não ser automático para você poder ter acomodação necessária, é fundamental. Acho que o acordo feito entre as centrais e o governo do presidente Lula dá conta dessa época que estamos vivendo, em que estamos valorizando o salário mínimo.

Valor: E depois, negocia-se outra regra?

Dilma: √Č, porque esta n√£o vai dar conta de uma √©poca futura neste pa√≠s, onde teremos mantido uma taxa de crescimento sistem√°tica, durante um per√≠odo mais longo, mais de cinco anos, por exemplo. A√≠, sim, voc√™ ter√° tido um n√≠vel de recupera√ß√£o da renda que justifica voc√™ ter outra meta. Agora, o que n√≥s fizemos e explicamos para as centrais foi manter o acordo que tinha uma sustenta√ß√£o pol√≠tica, uma sustenta√ß√£o de vis√£o econ√īmica da quest√£o do sal√°rio m√≠nimo.

Valor: O reajuste de 13,9% de 2012 corrigirá também as aposentadorias?

Dilma: Esse aumento vai para 70% dos aposentados que ganham salário mínimo. Quem ganha mais do que um mínimo não tem indexação. Em 2014 nós teremos que apresentar uma política para os anos seguintes.

Valor: Nessa ocasião ele poderá ser atrelado à produtividade?

Dilma: N√£o sei. N√£o acho que isso (a regra atual) seja uma indexa√ß√£o e quem est√° falando que √© uma indexa√ß√£o tem imensa m√° vontade com o trabalhador brasileiro. Temos que fazer com que algumas regi√Ķes do pa√≠s e alguns setores da sociedade cres√ßam a uma taxa maior do que a m√©dia para reduzir as desigualdades. Isso vale para o Nordeste, para o Norte, para a metade sul do Rio Grande do Sul, para o Vale do Jequitinhonha em Minas Gerais e o Vale do Ribeira, em S√£o Paulo. O mesmo se aplica a alguns setores da sociedade. H√°, a√≠, uma estrat√©gia que olha para o Brasil. O pa√≠s n√£o pode ser t√£o desigual. Isso n√£o √© bom politicamente, socialmente, e n√£o √© bom para a economia. O que nos aproxima da √ćndia, da R√ļssia e da China, os Bric, n√£o √© tanto o fato de sermos emergentes.

Valor: O que é?

Dilma: √Č o fato de que pa√≠ses que t√™m a oportunidade hist√≥rica de dar um salto para a frente, pa√≠ses continentais com toda a sorte de riquezas, quando sua popula√ß√£o desperta e passa a incorporar o mercado, isso acelera o crescimento. √Č o que explica que o nosso crescimento pode ser maior do que o crescimento dos pa√≠ses desenvolvidos. Outro fator √© se conseguirmos criar massivamente um processo de educa√ß√£o em todos os n√≠veis para a popula√ß√£o, e forma√ß√£o de pessoas ligadas √† ci√™ncia e tecnologia que permita que o pa√≠s comece a gerar inova√ß√£o. Essas tr√™s coisas explicam muito os Estados Unidos e √© nelas que temos que apostar para o Brasil dar um salto. N√≥s temos hoje uma janela de oportunidade √ļnica. Al√©m disso temos petr√≥leo, biocombust√≠vel, hidrel√©trica, min√©rio e somos uma pot√™ncia alimentar. N√£o queremos ser s√≥ "commoditizados". Queremos agregar valor. Por isso insistimos em parcerias estrat√©gicas com outros pa√≠ses. Agora mesmo vamos propor uma para os Estados Unidos.

"Vamos mandar medidas tribut√°rias e n√£o uma reforma. Vamos mandar v√°rias para ter pelo menos uma parte aprovada."

Valor: Na visita do presidente Obama? Qual?

Dilma: Na área de satélites, especialmente para avaliação do clima, e parcerias em algumas outras áreas. Vou lhe dar um exemplo: acho fundamental o Brasil apostar na formação no exterior. Todos os países que deram um salto apostaram na formação de profissionais fora. Queremos isso nas ciências exatas Рmatemática, química, física, biologia e engenharia. Queremos parceria do governo americano em garantia de vagas nas melhores escolas. Nós damos bolsa. Vamos buscar fazer isso não só nos Estados Unidos, e de forma sistemática.

Valor: O que a sra. espera de fato dessa visita?

Dilma: Acho que tanto para nós quanto para os Estados Unidos o grande sumo disso tudo, o que fica, é a progressiva consciência de que o Brasil é um país que assumiu seu papel internacional e que pode, pelos seus vínculos históricos com os Estados Unidos e por estarmos na mesma região, ser um parceiro importantíssimo. Isso a gente constrói. Agora, essa consciência é importante. Nós não somos mais um país da época da "Aliança para o Progresso", um país que precisa desse tipo de ajuda. Não que a aliança para o progresso não tenha tido seus méritos, agora não é isso mais que o Brasil é. O Brasil é um país que os EUA tem que olhar de forma muito circunstanciada.

Valor: Como assim?

Dilma: Que outro país no mundo tem a reserva de petróleo que temos, que não tem guerra, não tem conflito étnico, respeita contratos, tem princípios democráticos extremamente claros e uma forma de visão do mundo tão generosa e pró-paz? Uma questão é fundamental: um país democrático ocidental como nós tem que ser um país que tenha perfeita consciência da questão dos direitos humanos. E isso vale para todos.

Valor: Para o Ir√£ e para os EUA?

Dilma: Se n√£o concordo com o apedrejamento de mulheres, eu tamb√©m n√£o posso concordar com gente presa a vida inteira sem julgamento (na base de Guant√Ęnamo). Isso vale para o Ir√£, vale para os Estados Unidos e vale para o Brasil. Tamb√©m n√£o posso dar uma de bacana e achar que o Brasil pode ficar dando cartas e n√£o olhar para suas pr√≥prias mazelas, para o seu sistema carcer√°rio, por exemplo, sua pol√≠tica com rela√ß√£o aos presos. E isso chega ao direito de uma crian√ßa comer, das pessoas estudarem. Isso √© direito humano. Mas √© tamb√©m, no sentido amplo da palavra, o respeito √† liberdade, a capacidade de conviver com as diferen√ßas, a toler√Ęncia. Um pa√≠s com as ra√≠zes culturais que n√≥s temos, que tem uma cultura t√£o m√ļltipla, e que tem esse gosto pelo consenso, pela conversa, tudo isso caracteriza uma contribui√ß√£o que o Brasil pode dar para a constru√ß√£o da paz no mundo. Acho que o mundo nos v√™ como um pa√≠s amig√°vel.

Valor: A sra. disse recentemente que n√£o far√° reforma da previd√™ncia social. Mas a regulamenta√ß√£o da reforma da previd√™ncia do setor p√ļblico que est√° parada no Congresso, ser√° feita?

Dilma: Isso é outra coisa. Já está no Congresso e vamos tentar ver se ele vota. Mas não vamos tirar direitos do trabalhador, não. Nem vem que não tem!.

Valor: A regulamenta√ß√£o da previd√™ncia p√ļblica, com a cria√ß√£o dos fundos de previd√™ncia complementar, n√£o seria apenas para os novos funcion√°rios?

Dilma: √Č. Mas a√≠ temos que ver como ser√° feito. N√£o estamos ainda discutindo isso.

Valor: E a reforma tribut√°ria? H√° informa√ß√Ķes que a sra. enviar√° quatro projetos distintos, mudando determinados tributos. √Č isso mesmo?

Dilma: Est√£o entrando no Brasil produtos importados com o ICMS l√° embaixo. √Č uma guerra fiscal que detona toda a cadeia produtiva daquele setor. Mas n√£o vou adiantar o que vamos enviar ao Congresso porque n√£o est√° maduro ainda. Vamos mandar medidas tribut√°rias e n√£o uma reforma. Vamos mandar v√°rias para ter pelo menos uma parte aprovada. Mandaremos tamb√©m o Programa Nacional de Ensino T√©cnico (Pronatec) e o programa de Erradica√ß√£o da Pobreza.

Valor: Como ser√£o esses dois?

Dilma: Não posso lhe adiantar porque também não estão fechados. O Pronatec vai garantir que o ensino médio tenha um componente complementar profissional, de um lado, e, de outro lado, garantir que tenha uma formação para os trabalhadores brasileiros de forma que não sobre trabalhador numa área e falte em uma outra. Isso é um pouco mais complicado e não posso dar todas as medidas por que elas interferem em outros setores. Já a questão do ICMS é uma regulamentação que já está no Senado.

Valor: E a desoneração de folha salarial sai?

Dilma: N√£o posso lhe falar sobre as medidas tribut√°rias.

Valor: S√£o para este ano?

Dilma: Na nossa agenda é para este semestre.

Valor: Qual a proposta para a erradicação da pobreza?

Dilma: √Č chegar ao fim de quatro anos mais pr√≥ximo de retirar da pobreza os 19 milh√Ķes de brasileiros que ainda faltam.

Valor: O instrumental é o Bolsa Família?

Dilma: Nos j√° come√ßamos a mexer no Bolsa Fam√≠lia, aumentando a parte de crian√ßas. √Č com isso, com uma parte do Pronatec, que vai ajudar, √© com microcr√©dito, incentivo √† agricultura familiar de uma outra forma. Estamos passando as tropas em revista e mudando muita coisa. E tem que ter sintonia fina. H√° profissionais dedicados ao estudo da pobreza que diz que se voc√™ n√£o focar, olhando a cara dela, voc√™ n√£o consegue tirar as pessoas. E n√≥s queremos, desta vez, estruturar portas de sa√≠da.

Valor: Para todos e n√£o s√≥ para os 19 milh√Ķes a que a sra se referiu?

Dilma: Para todo mundo.

Valor: Uma porta de saída será o Pronatec?

Dilma: Também. As saídas estão aí e estão em manter a economia crescendo.

Valor: A reunião anual da Assembleia de Acionistas da Vale será dia 19 de abril. Nessa reunião deve se decidir sobre a permanência ou não do presidente Roger Agnelli, cujo contrato de trabalho termina dia 30 de abril. Ele será substituído ou pode ser reconduzido?

Dilma: N√£o sei.

Valor: A sra. n√£o sabe?

Dilma: Você vai ficar estarrecida, mas não sei.

Dilma garante guerra à inflação

Claudia Safatle | De Brasília

A presidente da Rep√ļblica, Dilma Rousseff, foi afirmativa: "N√£o vou permitir que a infla√ß√£o volte no Brasil. N√£o permitirei que a infla√ß√£o, sob qualquer circunst√Ęncia, volte". A declara√ß√£o foi dada durante entrevista ao Valor, a primeira exclusiva a um jornal brasileiro, num momento em que as expectativas de infla√ß√£o pioram e os mercados insinuam que o Banco Central n√£o tem autonomia para agir. "Eu acredito num Banco Central extremamente profissional e aut√īnomo. E este Banco Central ser√° profissional e aut√īnomo", garantiu a presidente.

Em conversa de cerca de duas horas, Dilma não poupou ênfase à guerra anti-inflacionária: "Não negocio com a inflação. Em nenhum momento eu tergiverso com inflação. E não acredito que o Banco Central o faça", reiterou, com a ressalva de que o combate não será feito com o sacrifício do crescimento. "Tenho certeza que o Brasil vai crescer entre 4,5% e 5% este ano", afirmou.

A presidente n√£o concorda com a avalia√ß√£o de que h√° excesso de demanda e de que o pa√≠s cresce acima de seu potencial. "Pode ser que essa seja a diverg√™ncia que n√≥s temos com alguns segmentos". Ela n√£o nega que haja desequil√≠brios entre oferta e demanda em alguns setores, mas argumenta: "√Č inequ√≠voco que houve nos √ļltimos tempos um crescimento dos pre√ßos dos alimentos, que j√° se reduziu, al√©m dos reajustes sazonais do in√≠cio do ano. E h√° a press√£o ligada aos pre√ßos das commodities".

Para a presidente, ver incompatibilidade em segurar a infla√ß√£o e ter uma taxa de crescimento sustent√°vel representa o retorno da velha tese "de que √© preciso derrubar a economia brasileira". A esse respeito, ela √© incisiva: "N√≥s n√£o vamos fazer isso". E salienta que seu governo est√° adotando "medidas s√©rias e s√≥brias". Est√° controlando o gasto p√ļblico e esfriando ao m√°ximo a expans√£o do custeio. "Conter o gasto de custeio √© como cortar as unhas", compara. "O governo sempre tem que controlar, caso contr√°rio ele cresce".

Sobre as desconfian√ßas do mercado em rela√ß√£o √† dosagem da pol√≠tica monet√°ria para controlar a infla√ß√£o e as cr√≠ticas sobre o uso de medidas prudenciais associadas √† eleva√ß√£o da taxa de juros, a presidente comenta: "N√£o sei se n√£o est√£o tentando diminuir a import√Ęncia deste Banco Central porque n√£o h√° gente do mercado em sua diretoria".

Se o mercado, com suas boas ou m√°s inten√ß√Ķes, considera a gest√£o de Alexandre Tombini no Banco Central "dovish" – frouxa como um pombo, em contraposi√ß√£o a "hawkish", duro como um falc√£o – ela ri e prontamente responde: "Eu sou uma arara".


2 Comentários para “Dilma Rousseff Refere-se aos Problemas Japoneses”

  1. Jose Comessu
    1  escreveu às 06:25 em 18 de mar√ßo de 2011:

    Caro Paulo.

    sobre o aumento de fluxo de dinheiro para o Japao,isso eh tudo que o governo japones nao quer.

    o dolar ja chegou a 76 , o menor valor desde o segunda guerra.

    sua poupanca interna nao eh suficiente?

  2. Paulo Yokota
    2  escreveu às 06:55 em 18 de mar√ßo de 2011:

    Caro Jose Comessu,

    Sou economista e estou bastante informado sobre o assunto. Com a ajuda de outros países, o yen fechou a 81,36 hoje em Tóquio, devendo se manter acima de 80, mesmo com o retorno de muitos fundos japoneses que estão aplicados no exterior, inclusive no Brasil que é de U$ muitos bilhões.

    Paulo Yokota