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Kirin Disposta a Adquirir a Parte Minoritária da Schincariol

26 de setembro de 2011
Por: Paulo Yokota | Seção: Economia, Editoriais, Notícias, webtown | Tags: disposição de compra dos minoritários da Schincariol, negociações mal conduzidas, noticias sobre a Kirin no Nikkei | 10 Comentários »

Como já expresso no artigo postado no dia 2 de agosto último neste site, a Kirin – empresa japonesa da indústria de bebidas, principalmente de cervejas, adquiriu a parte majoritária do controle da Schincariol, empresa brasileira envolvida em controvérsias fiscais e disputa entre grupos de acionistas. No domingo, dia 25 de setembro, numa notícia publicada no jornal econômico japonês Nikkei, consta que a Kirin se mostra disposta a adquirir também a parte minoritária deste controle, visando superar uma disputa que está se travando no Judiciário brasileiro.

Segundo a notícia, a Kirin Holding planeja entrar em negociações com os minoritários, para tornar-se a acionista única da Schincariol, da qual adquiriu uma empresa holding que detém 50,45% das ações que representam o seu controle. Como se sabe, os atuais administradores da Schincariol são sobrinhos do seu fundador, cujos filhos detêm a parte minoritária com outra holding, mas ingressaram em juízo alegando dispor da preferência para a aquisição da parte majoritária, criando um impasse grave.

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Infelizmente, este é um novo caso de condução inadequada de interesses privados japoneses no Brasil, por falta de uma assessoria adequada. Ainda que esta aquisição da parte minoritária da Schincariol seja concluída, certamente o preço pago será excepcionalmente elevado. Todos os informados pelo mercado de bebidas se surpreenderam com o exagerado montante pago pela parte majoritária, que sempre tem um valor adicional devido ao controle da empresa. Agora, sem uma alternativa razoável, acabarão pagando o mesmo ou até mais pela parte minoritária, pois seus detentores deverão tirar partido da situação embaraçosa em que se encontram.

Além disso, a evolução das pendências judiciais que possam existir com os antigos proprietários da Schincariol tendem a se transferir para os novos, se a operação for concluída. Mesmo que haja acordos contratuais estabelecidos, comentam-se sobre as possibilidades de envolverem demandas judiciais relacionadas com o sistema tributário. Também alguns empregados da empresa poderão tirar partido da complexa situação em que está envolvida a organização.

Muitos comentam também das dificuldades das empresas de bebidas com as práticas monopolísticas efetuadas no setor, notadamente os relacionados com as defesas dos consumidores, diante das operações de vendas chamadas casadas, em que alguns produtos são colocados à disposição dos consumidores ou estabelecimentos comerciais intermediários em conjunto com outras de venda mais difícil.

Imagina-se que a Kirin, depois da confusão em que acabou sendo envolvida, tenha examinado todos estes potenciais encargos adicionais, mas acabou ficando com a imagem que sempre terá possibilidade de ser explorada em situações constrangedoras. Vão necessitar de revisar as assistências que estão recebendo, que se comenta no mercado que envolve inclusive alguns estabelecimentos bancários.

O lamentável episódio mostra que as empresas japonesas precisam contar com assessorias confiáveis que conheçam detalhadamente os problemas locais, ainda que não estejam habituadas ao seu uso profissional adequado.


10 Comentários para “Kirin Disposta a Adquirir a Parte Minoritária da Schincariol”

  1. mike
    1  escreveu às 00:55 em 27 de setembro de 2011:

    Essa novela Kirin-Schin é algo intrigante de tão bizarra.
    Com tradição em investimentos no Brasil (Honda, Toyota, NEC, Mitsui, etc), como uma empresa japonesa pôde ter sido tão mal assessorada?

  2. Paulo Yokota
    2  escreveu às 04:48 em 27 de setembro de 2011:

    Caro Mike,

    Realmente, é surpreendente. Mas, é preciso levar em conta que houve muitos fracassos que já desapareceram. Os casos citados são de empresas que não são joint ventures, mas subsidiárias de empresas japonesas no Brasil que começaram a sua atividade por aquí, sem adquirir algo que existia. Eles não costumam utilizar consultores brasileiros, e tudo indica que no caso usaram bancos que só se interessam na conclusão da operação, sem conhecer profundamente a realidade de cada empresa.

    Paulo Yokota

  3. Karina
    3  escreveu às 10:27 em 27 de setembro de 2011:

    Concordo com o Mike. É surpreendente ver a ingenuidade e o amadorismo das empresas japonesas atuando no Brasil.
    Temos que lembrar que os japoneses de agora não são os que reconstruiram o Japão pós-guerra.
    Infelizmente, grande parte dos japoneses de agora pensam que competência é sinônimo de funcionário ou assessor que bajula (só diz o que eles querem ouvir, só fazem o que eles querem, sendo que nem sempre o que eles querem se aplica ao Brasil).
    O problema é que mesmo alertando, sempre insistem em confiar nas pessoas erradas.
    A consequencia disto é a contratação de péssimos assessores que estão mais preocupados em puxar saco e fazer de tudo para não trabalhar. É o que provavelmente aconteceu com a Kirin.

  4. Paulo Yokota
    4  escreveu às 20:07 em 27 de setembro de 2011:

    Cara Karina,

    É sempre arriscado fazer suposições. E conheço um experiente profissional que afirma: preste atenção quando erram muitas vezes, pode ser que estejam acertando, mas os terceiros não conhecem os objetivos que perseguem. Já ví muitas barbaridades cometidas por executivos japoneses do nosso ponto de vista. Mas será que não estavam perseguindo o que não sabemos o que seja ?

    Paulo Yokota

  5. Jose Comessu
    5  escreveu às 11:47 em 27 de setembro de 2011:

    Ou seja Citybank do lado japones e BTG Pactual do Lado brasileiro.
    mas a culpa eh mesmo da banca que conduziu a parte juridica.

  6. Paulo Yokota
    6  escreveu às 20:00 em 27 de setembro de 2011:

    Caro Jose Comessu,

    A responsabilidade principal deve ser dos dirigentes da empresa japonesa pois foram eles que escolheram as assessorias que desejavam.

    Paulo Yokota

  7. mike
    7  escreveu às 20:44 em 27 de setembro de 2011:

    Dr. Paulo,
    Aproveitando a resposta do sr. ao comentário da Karina, concordo que é arriscado fazer suposições, mas os números fazem pouco sentido nessa “compra” da Kirin. Pelo balanço da Schin em 2010 (que é bom desconfiar também), o patrimônio líquido era de R$1,3 bilhões, e o lucro líquido no ano foi de míseros R$ 40 milhões!
    Por mais que exista uma estratégia mirabolante, não faz muito sentido esse negócio de pague 4, leve 1, ou mesmo nenhum dependendo da evolução da novela.
    Com sua experiência, que sentido o sr. consegue vislumbrar nessa transação?

  8. Paulo Yokota
    8  escreveu às 04:14 em 28 de setembro de 2011:

    Caro Mike,

    Existem muitas pessoas que conhecem as empresas relacionadas com as cervejas e outras bebidas que avaliam que os preços envolvidos são superiores aos que seriam razoáveis no mercado. Vou enviar um email para V. sobre o que se supõe tenha acontecido neste caso, mas que não conta com bases objetivas.

    Paulo Yokota

  9. Massa
    9  escreveu às 10:49 em 28 de setembro de 2011:

    Sociedade é igual casamento, o noivo precisa conhecer (muito bem) a noiva antes de pedir a mão…
    É elementar !
    Mas a Kirin comprou parte da Schin sem ao menos conhecer a futura noiva (sócio minoritário), logo tinha que dar em briga…
    Deveriam demitir o presidente da Kirin, como pode fazer uma aquisição de bilhões sem fazer o óbvio!
    (Para saber o elementar nas relações humanas não precisa de uma empresa de consultoria).
    Alias, a maioria dos especialistas estão dizendo que o negócio foi péssimo, abaixo 10 motivos contra:
    1.Preço acima do mercado;
    2.Pendência juridica;
    3.Passivo enorme e incerto;
    4.Desconhecimento do mercado brasileiro;
    5.Corrência muito forte da AMBEV;
    6.Incerteza na gestão administrativa até a solução do problema jurídico;
    7.Convivência “amigável” com o novo socio;
    8.Complexidade tributaria brasileira;
    9.Negócio que afeta o valor da própria Kirin
    como um todo;
    10.Necessidade de um enorme investimento futuro, tanto na compra de ações, como investimento em tecnologia.

    Enfim, os japoneses não aprendem, é incrivel como erram em negócios tão básicos, até um comerciante de esquina não teria feito essa besteira.
    Erraram na compra do complexo Rockfeller Center, erraram na compra dos estudios Universal, erram na compra de somente 10% da ATT pagando ~16 bilhões de dolares enquanto na mesma época, a privatização de toda Telebras custou 13 bilhões, sendo que o valor das ações da ATT viraram pó alguns anos depois etc…

  10. Paulo Yokota
    10  escreveu às 11:10 em 28 de setembro de 2011:

    Caro Massa,

    Obrigado pelos comentários. Um experiente amigo meu informa que, quando alguém erra de forma sistemática como pensamos, pode ser que tenham outros objetivos que ignoramos.

    Paulo Yokota