Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

No Suplemento do Valor Econômico Sobre o Banco Central

10 de maio de 2013
Por: Paulo Yokota | Seção: Economia, Editoriais, Notícias, webtown | Tags: boas formações acadêmicas, grupo respeitado de profissionais, influência nas decisões sobre os juros, sobre o Depep do Banco Central

O suplemento Eu & Fim de Semana do jornal Valor Econômico vem revelando uma grande capacidade de abordar temas difíceis de política econômica numa linguagem razoavelmente compreensível até aos leigos no assunto. É o caso da sua reportagem de capa, que se refere ao modelo denominado “samba” elaborado pelo Depep – Departamento de Pesquisa Econômica, destinado a fornecer as informações básicas para as decisões que são tomadas no chamado Copom, composta pelos diretores do Banco Central. Eles decidem a taxa Selic, considerada a referência do que as autoridades monetárias perseguem em matéria de juros e política monetária e creditícia, visando o controle da inflação.

O artigo mostra a invejável preparação dos seus 50 componentes, dos quais 39 possuem o título de doutores e 11 de mestrados. Dos doutores, 9 são Ph.D em universidades estrangeiras de primeira linha, constituindo possivelmente um dos núcleos mais respeitáveis de qualificados profissionais de pesquisa econômica do Brasil. Com longas preparações, inclusive em discussões com importantes componentes de outros bancos centrais no mundo, acabaram desenvolvendo um modelo mantido em sigilo que lhes permitem apresentar as estimativas de inflação, dentro do sistema de metas inflacionárias. Elas têm, mesmo acompanhando a tendência da inflação ocorrida, sido em média 0,58 pontos percentuais menores do que as constatadas.

banco

A quase totalidade dos componentes do Depep é especialista em sofisticados conhecimentos de estatística, mas demonstra que suas formações humanísticas podem não ser profundas. Suas informações são avaliadas pelos diretores do Banco Central que se supõem estejam mais preparados para avaliarem as pressões que ocorrem na economia, que não são somente de natureza econômica.

O artigo procura elaborar alguns paralelos com o que acontece em outros bancos centrais mundo afora, principalmente dos países que adotam o sistema de metas de inflação. É preciso compreender que desde o FED – Sistema Federal de Reservas, onde tais práticas de política monetária e creditícia tiveram origem, os objetivos considerados não se resumem somente nas metas inflacionárias, a qualquer custo, despreocupando-se com o crescimento da economia e o nível de desemprego.

O que se enfatiza no artigo é que hoje o Banco Central se baseia na prata da casa, ou seja, os funcionários que foram formados no próprio estabelecimento, ainda que tenham complementados seus estudos em grandes universidades no exterior, até com o incentivo do próprio Banco Central. O Depep teve como primeiro chefe o economista Alexandre Tombini, hoje presidente do Banco Central do Brasil.

No passado, contou-se com economistas provenientes de fora, como Sérgio Werlang, que estudou em Princeton, Ilan Goldfajn, que estudou no MIT, Afonso Bevilaqua, que estudou em Berkeley, e Mário Mesquita, que estou em Oxford.

Ainda que tudo isto seja importante, parece que a mudança vital que ocorreu no Banco Central é que muitos dos seus diretores eram provenientes das academias ou de estabelecimentos bancários privados. Hoje, a totalidade dos seus diretores são funcionários de carreira do próprio Banco Central.

Apesar de, teoricamente, o Banco Central consultar o mercado por intermédio dos relatórios denominados Focus, tudo indica que os mesmos retornam mais os desejos das autoridades monetárias. O aspecto que parece relevante no que se refere à inflação não parece ser este, mas a composição do CMN – Conselho Monetário Nacional, que fixa as metas, mesmo que não sejam realistas.

No passado, o CMN era composto por um número mais elevado de membros, refletindo diversos setores da vida econômica. Hoje, seu presidente é o ministro da Fazenda, contando somente com dois outros membros, o presidente do Banco Central do Brasil e o ministro do Planejamento, onde o consenso acaba sendo mais fácil, ainda que não reflita exatamente a inflação possível e desejável.