Tentando aproximar a Ásia da América do Sul e vice-versa

O Brasil que Pouco Conhecemos

10 de dezembro de 2019
Por: Paulo Yokota | Seção: Cultura, Editoriais e Notícias | Tags: a Amazônia pelo chão, A Cabeça de Cachorro e o Rio Negro na Amazônica, a dura realidade da população local., artigo brilhante de Drausio Varella na sua coluna na Folha de S.Paulo

Drausio Varella com sua reconhecida capacidade em variados setores do conhecimento humano descreve o voo que efetuou pela região conhecida como Cabeça de Cachorro na Amazônia, maior que Portugal, na fronteira brasileira com a Colômbia e a Venezuela até Manaus. Visava ajudar num programa que amplia o que os brasileiros conhecem da gigantesca região abrangida pelo Rio Negro. Conheci parte desta área desde estudante de economia há dezenas de anos até o exercício de tarefas do Banco Central do Brasil e do Iclip_image002NCRA – Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária por longos períodos. Do chão da Amazônia existem muitas outras visões que nem sempre são conhecidas pelos que sobrevoam a região somente de avião.

A imperdível Vitória Regia na Amazônia, que, para vê-la diretamente, exige uma caminha pela floresta, com alguns percalços

É natural que os muitos mosquitos que existem na floresta são atraídos pelo cheiro do sangue dos visitantes e suas picadas atravessam mesmo as camisas mais espessas, o que não acontece com os habitantes locais, como os guias. Também se recomenda que a fila dos visitantes tenha na sua cabeceira os que vêm de outras regiões, pois se eventualmente pisarem numa cobra, a tendência é ela reagir atacando os que o seguem.

O Rio Negro atravessa a parte norte da região para, com a junção com o Solimões mais barrenta, formar o Amazonas até chegar ao Atlântico. Nos períodos das chuvas, costuma inundar amplas áreas, e os igarapés que corriam por uma rota podem mudar sensivelmente para outras, o que hoje é detectável pelo uso do GPS, mas deixavam dúvidas dos limites das propriedades no passado, gerando conflitos sobre as terras.

As muitas tribos de indígenas que ocupam a Amazônia são de etnias diversas e hoje as mais conhecidas como os yanomanis ocupam parte do Brasil, da Colômbia e da Venezuela, havendo dificuldades com as chamadas fronteiras secas que não contam com marcos claro para a sua identificação. Muitos destes yanomanis ocupam campos e cerrados em grupos relativamente pequenos de famílias, como no Estado de Roraima, que são diversos nas florestas, dadas às limitadas disponibilidades de alimentos indispensáveis. Os períodos de chuvas intensas são diferentes das da região de Manaus, pois elas ficam no hemisfério norte.

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Yanomanis isolados em Roraima, protegidos pela Funai, com riscos de invasão de garimpeiros e agricultores ilegais

Pouquíssimos conhecem a ampla Amazônia nos seus muitos detalhes, inclusive autoridades, e o conhecimento superficial pode induzir a erros nas muitas medidas políticas indispensáveis, que diferem muito pelas regiões, notadamente das muitas outras áreas de intensa ocupação urbana. Hoje, se reconhece mundialmente que a Amazônia é relevante do ponto de vista da preservação do meio ambiente, como está se discutindo em Madrid, com consequências importantes nas mudanças climáticas que estão se intensificando.

São conhecidas as possibilidades de exploração econômica da região Amazônica sem que as florestas e seus habitantes sejam prejudicados. A ampla biodiversidade da região permite a convivência da floresta, sendo que produtos como o açaí ou a castanha do Pará sejam exemplos importantes, sem a derrubada das florestas ou seus incêndios. Também o guaraná e o cacau, além de muitos tipos de mandioca, permitem que as oportunidades existentes nos mercados mundiais possam ser aproveitadas preservando o relevante. Existem créditos de carbono decorrentes da preservação da floresta que podem proporcionar recursos significantes. Mas tudo exige um cuidadoso programa de longo prazo do Brasil, elaborado com tudo que se conhece, há muito tempo, sobre estas florestas, não havendo nenhuma necessidade de ampliação dos debates, com colocações que chegam até a ser agressivas que em nada ajudam a imagem do país.